Luta contra o estigma
Alunos provenientes de famílias de baixa renda têm de superar uma difícil barreira social: aquela que os coloca como destinados ao fracasso escolar 8/3/2010
Jéssica Unias de Lima, de 16 anos, sempre penou para tirar boas notas em matemática, disciplina em que tinha mais dificuldade de aprender novos conteúdos. A deficiência foi superada com as aulas de reforço ministradas nos finais de semana na escola pública em que estuda. A estudante também criou o hábito de buscar ajuda fora da sala de aula, entre professores, amigos mais instruídos e até mesmo vizinhos. Atitudes simples, mas que exigiram de Jéssica uma mobilização maior do que a convencional - ela cuidava de dois irmãos menores para que a mãe pudesse trabalhar. A faxineira Marinês Unias de Lima, de 35 anos, é arrimo de família e hoje se orgulha de ver a filha recém-colocada num estágio da Suzano Papel e Celulose. Para ingressar na empresa, Jéssica passou por um processo seletivo que exigiu conhecimentos em exatas. "Eu levava os meninos para a biblioteca comigo e explicava a eles a importância de aprender", conta Marinês. "Embora não estivesse presente no dia a dia, minha mãe sempre me incentivou ao proporcionar as condições para ter acesso ao material necessário e realizar os trabalhos escolares", relata a filha.
Casos como o de Jéssica - que venceu as sequelas da baixa escolaridade da família e quebrou o ciclo de miséria provocado pela falta de acesso à formação e à informação - contrariam a tendência majoritária de ambientes marcados pelas carências culturais, alimentares e linguísticas estarem intimamente ligados ao fracasso escolar. "Trata-se de uma explicação cômoda e preconceituosa", diz a pedagoga Silvia Colello, professora de psicologia da educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "É como se chegasse um paciente portador de HIV a um pronto-socorro e o médico deixasse de atendê-lo devido às suas condições", compara.
Mas estatísticas de diferentes instituições como Fundação Getulio Vargas, Ibmec Rio de Janeiro e Universidade de São Paulo apontam para uma tendência cruel: filhos de pais analfabetos têm apenas 1% de chance de se graduar. Entre os filhos de pais com ensino superior completo, 60% concluem a universidade. No outro extremo, 34% dos filhos de analfabetos não chegam a aprender a ler e a escrever. "Quem nasce em ambiente letrado está condenado a aprender e com maior facilidade por conta das experiências vividas, que são pedagógicas."
Para a professora, a educação é um processo que exige um conjunto diversificado de saberes e é papel da escola oferecê-lo a quem não tem oportunidade dentro de casa. Nesse sentido, aponta como estratégias decisivas a aproximação entre corpo docente das escolas e representantes das famílias, a formação continuada dos professores e a promoção de atitudes que sensibilizem os alunos para o conhecimento. "Com o ensino sucateado e os professores despreparados, muitos encontram em canais alternativos a diversidade necessária para crescer", diz.
É a impossibilidade de encontrar em casa e na escola referências de pessoas com um bom acúmulo de capital cultural que induz à busca em outras instâncias, como ONGs, agremiações e até igrejas. É o caso do administrador de empresas Thiago da Conceição de Paula, de 24 anos, que buscou o trabalho voluntário da comunidade. "Quando concluí o ensino médio, não tinha condições financeiras e nem aprendizado suficiente para ingressar numa universidade e isso me frustrou muito", conta. Sem enxergar muitas saídas, desistiu da graduação naquela ocasião. Quando ingressou, como multiplicador, no projeto Educomunicação, sentiu que alguma mudança aconteceria. Iniciativa da Universidade de São Paulo (USP), o objetivo principal do Educomunicação é o crescimento da auto estima e da capacidade de expressão das pessoas. "Percebi que cabia a mim mudar a história da minha família e fui atrás de bolsas de estudo", recorda-se.
Reação em cadeia
O passo dado por Thiago afetou a esposa, Maristela Mendes de Paula, 21 anos, hoje aluna do 4º ano de administração da Universidade Zumbi dos Palmares. Na época em que prestaria vestibular, M |